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Descobri, noutro dia, quando olhava para fora da janela, num intervalo imposto por mim mesma em momento inoportuno, que chovia, e imaginei como seria bom deixar-me chover. Correr simplesmente, quer dizer, eu corro, mas deve ser como aquela chuva miudinha que ninguém sente ou vê, ou que ignora porque dá mais jeito do que abrir o guarda-chuva... e depois ter que leva-lo na mão (ainda o perdemos…). Descobri que ler um milhão de vezes a mesma página pode ser duplamente vantajoso, para além de ajudar a correr, ou muitas vezes a transferir as letras para a mente sem sequer saber que está a acontecer. Podemos ainda correr sem sair do mesmo lugar, e sentir a voz afastar-se cada vez mais, até ser um surdo eco que apenas a memória ouve, integra naturalmente. Tem dias em que se afasta demais, e deixa de se ouvir (se calhar cai num buraco qualquer), e alguém dá conta, alguém perspicaz que subestimamos por qualquer razão, e não devíamos. Claro que nem dou conta, porque a voz é simplesmente substituída por um conjunto de imagens e som ao qual fujo, e quando este me apanha assisto, impávida e serena. Há sempre as mensagens a voar em torno dos olhos, mas se eu quiser mesmo ir embora, vou, com ou sem voz, com ou sem perspicácias, e mesmo quando sei que é importante (ou pelo menos importante para a segunda vantagem de ler um milhão de vezes a mesma página). Mas, claro que o sorriso (vazio) está sempre lá, porque quando não está, as perspicácias aumentam… e há poucos perspicazes que saibam dizer mais do que o mesmo… e os que sabem, estão ocupados a fugir de alguém, ou de alguma coisa, que os persegue enquanto estão a olhar a chuva.